quinta-feira, 28 de abril de 2011

Vontade Divina

Vontade Divina
                                                                       João Fidélis de Campos Filho
        Foram brevíssimos minutos. O repórter aproximou-se do moço que aparentava vinte e poucos anos. “Foi por Deus”, explicou ele ao repórter, ainda sob o impacto do medo e da emoção. O repórter perguntou: como aconteceu?
E ele relatou o episódio: “Eu e meu irmão brincamos de bola quase todo dia neste campinho, depois do trabalho. Ontem quando começamos a trocar bola o tempo mudou de repente. Ouvi um grande estrondo e em seguida um raio atingiu em cheio meu irmão. Quando chegou ao hospital já estava morto. Graças a Deus não fui atingido, senão teria partido desta também”, explicou o rapaz.
Este fato ocorreu há poucos dias. Mas quando da tragédia em Teresópolis um ancião lamentava a perda de toda a sua família arrastada morro abaixo com a tempestade. Ele que foi o único sobrevivente de uma prole numerosa sentenciou: “Deus que me livrou! Só sofri um corte no braço, mas já estou bem.”
Nos dois casos vitimas que perderam entes queridos agradecem a Deus por ter-lhes poupado a vida. O Deus que permite a tragédia e a morte de crianças inocentes é o mesmo que deixa ileso um homem de idade avançada. O Deus que permite que um irmão morra num raio fulminante e, o outro irmão que estava a poucos metros sobreviva, pode ser julgado pela nossa razão interpretativa?  
“Se quiser desafiar o Criador infrinja a lei natural das coisas”, dizia Pascal ciente que o homem tem grande parcela de culpa ao expor-se ao perigo. Mas o que dizer dos inocentes vítimas dos atos inconseqüentes dos outros? Dos civis que são atingidos pelas guerras, dos motoristas que são arrolados em acidentes pelos maus condutores e perecem, dos milhares atingidos por balas perdidas e das crianças ceifadas pelas epidemias, fome e desastres incontáveis?
“Todos tem sua hora de partir”, afirma os espíritas. Tudo obedece à sábia lei do carma, aonde o ciclo das reencarnações vai conduzindo o espírito ao aprendizado e o despertar da consciência. Deus, para quem o tempo não existe exerce seu completo domínio sobre a vida e a morte. Cada molécula que se choca obedece a sua vontade. No entanto o homem indaga, edifica sistemas para explicar suas teorias, mas grande parte dos acontecimentos mundanos está envolto num véu de mistérios.
Para algumas religiões Deus tem um plano para cada ser existente neste planeta e este ser cumpre simplesmente sua obrigação de tempo e espaço. A vida seria para alguns apenas poucos segundos enquanto que para outros longeva. A questão é que o homem, como todos os seres existentes, nasce com um forte instinto de conservação da espécie, não aceita seu destino. E para manter-se afastado das doenças psicológicas apega-se às ilusões e desejos da vida cotidiana.
Compreender o porquê dos acontecimentos deste planeta ou os desígnios divinos como prova Kant é um campo fértil de especulações porque o que está além das leis da natureza não pode ser demonstrado. Não é como somar dois mais dois, que se sabe com certeza que o resultado será sempre quatro. Por isso Deus surgiu sempre na história da humanidade para explicar tudo que o homem desconhecia. A existência de Deus é na filosofia o ponto de partida para o estudo da metafísica e uma pré-condição fundamental para as religiões. Sem Deus elas não teriam razão de existir.
Muitos filósofos preferiram crer numa ordem racional do universo e numa causa desta ordem que seria Deus, mas a maioria não aderiu aos sistemas religiosos erigidos a partir da idéia deste Criador. Diante da incerteza a dúvida ainda é a melhor opção. Mas isto não retira do homem o estímulo contínuo de buscar a verdade, ou estar freqüentemente construindo novas “verdades”. Cada um é um microcosmo e carrega consigo um sistema de crenças. E indagar sempre é sua sina.
João Fidélis de Campos Filho- Cirurgião-Dentista

quinta-feira, 21 de abril de 2011

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Força Modeladora da Natureza

João Fidélis de Campos Filho

O homem moderno se vê diante de muitas situações nas quais é obrigado a fazer escolhas cujos acertos ou erros dependem da avaliação de sua consciência. São muitos os estímulos psicossociais, pois estamos num tempo de grande diversidade material e cultural. A vida tranqüila das gerações de décadas passadas foi substituída pelo ritmo frenético dos acontecimentos que se sucedem e que dão tão pouco tempo ao homem de digeri-los. As frustrações geralmente se originam da natural incapacidade de se realizar todas as aspirações, dos conflitos de relacionamentos e do sentimento de culpa.

Não é por mero fatalismo que muitos filósofos de nossa época redescobriram o pensamento de Demócrito, pois suas idéias funcionam como um antídoto aos males do homem atual, ao mesmo tempo em que combinam com a atmosfera científica e industrial deste século. Este pensador grego percorreu o mundo de sua época em longas viagens até por fim estabelecer-se em Atenas e dedicar seu tempo à contemplação e ao estudo, levando uma vida simples e desprovida das coisas inúteis que os homens comuns costumam julgar “essenciais’

Para Demócrito nossos sentidos são pouco confiáveis e nossas necessidades são guiadas por valores culturais abstratos. ”Se todo o universo é formado de átomos cujas forças estão constantemente interagindo o homem vive apenas das formas com que a matéria se diferencia e de seus efeitos”, ou seja, vive num mundo aparente de causas inacessíveis à sua compreensão. Os átomos e suas reações constituem a verdadeira realidade, afirmava.

Demócrito pregava que a felicidade é algo inconstante e os prazeres sensuais apenas nos oferecem breves satisfações. O ser humano só encontra um contentamento mais duradouro através da paz e serenidade da alma (ataraxia), do bom humor (euthumia) e da moderação (metriotes).

Outro componente da realização pessoal é a chamada “nobreza do homem”, diz o pensador grego. Se os animais cumprem com suas obrigações instintivas (“a aranha a tecer”, as andorinhas a construir, o rouxinol a cantar, etc.,”) a força de caráter é motor que dirige o homem feliz. Por isso Demócrito diz: “As boas ações não devem ser praticadas por obrigação e sim por convicção: não com esperança de recompensa (como erroneamente pregam certas religiões), mas pelo simples amor à bondade”. E arremata: “É mais diante de si próprio do que diante do mundo que o homem deve envergonhar-se de suas más ações”.

Interessante que Demócrito aponta o amor como a maior força modeladora da natureza. Na extremidade oposta o ódio funciona como força desorganizadora. Graças ao amor o homem criou as mais belas obras de arte e tornou a vida mais saudável e com mais bem estar. Segundo Demócrito a evolução e o progresso da humanidade demonstram que o amor prevalece porque o homem não cessa de criar, apesar de todos os conflitos e vicissitudes.

Por não citar Deus em seus escritos e acreditar na ordem natural das coisas, muitos filósofos tendem a pensar que Democrito era ateu. A célebre frase “o todo é algo que jamais foi visto, ouvido ou concebido pelo espírito do homem” é tida como prova de sua incredulidade num governante do universo. No entanto ele nunca se manifestou claramente sobre esta questão. Dizem alguns até que ele era indiferente a isso.

Demócrito viveu 109 anos e muitos de seus amigos construíram sua verdadeira filosofia já que apenas 470 linhas do que escreveu chegou até nós. Contudo seu texto ainda é muito lido e estudado em universidades do mundo todo e é objeto de grandes debates no campo das idéias.

Obs. palavras entre aspas são de Demócrito.

João Fidélis de Campos Filho

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quarta-feira, 16 de março de 2011

Robôs e Alienígenas

Robôs e Alienígenas
                                                                                                          João Fidélis de Campos Filho
            Uma comissão de cientistas da NASA (Agência Espacial Norte-Americana) divulgou nestes dias o resultado de um amplo estudo sobre a possibilidade de vida no universo, no qual chegou-se à conclusão de que é praticamente impossível (devido às condições atmosféricas, climáticas, etc.) a existência de vida extra-terrestre.Curioso é que em dezembro a descoberta de uma novo tipo de bactéria num lago da Califórnia levou a mesma NASA a afirmar que poderia haver vida fora do planeta Terra, portanto esta mudança de ponto de vista em tão pouco tempo levanta dúvidas sobre veracidade do estudo.
            È importante lembrar que estas pesquisas se atem unicamente à forma de vida biológica existente em nosso planeta. A Terra reúne condições propícias para que os seres vivos aqui se desenvolvam para manter acesa a chama do ciclo vital através da transmissão dos genes de cada espécie. Pode ser que existam (e isto a pesquisa não cita) outras formas de seres, os alienígenas, que não necessitem da energia que os seres vivos precisam para se manter em atividade. No entanto os cientistas reforçaram a tese de que não há evidências científicas aceitas pela comunidade acadêmica internacional para se afirmar que existem outras formas de seres.
            Para muitas mentes inteligentes é pouco provável que este gigantesco e ainda desconhecido universo abrigue apenas os seres do nosso planeta. Contudo com a difusão do cientificismo atual vem aumentando o número de céticos, ateus e materialistas que negam até a existência da própria mente. Muitos sustentam que as reações químicas do cérebro são responsáveis não só pelo nosso raciocínio assim como nossas emoções. Separar o cérebro da consciência (ou do eu) tem sido uma tarefa desafiadora para a neurociência. Segundo Henri Bergson o homem não é uma maquina passivamente adaptável; ele é um foco de força redirecionada, um centro de evolução criativa. E a escolha (o livre-arbítrio) é criação e criação é trabalho. O homem só capta o fluxo da vida pelo pensamento e pelo intelecto, portanto  como a matéria poderia produzir intuição e imaginação? Matéria não pensa e não sente.
            Sem a mente os animais agiriam unicamente pelo instinto de conservação e isso na prática inexiste. Eles agem também por sentimentos e aspirações diversas. Não faz muito tempo o psiquiatra norte-americano Martin Paulus, professor da Universidade da Califórnia anunciou a descoberta que a ínsula é a ponte de conexão entre o cérebro e a mente. Através de exames de ressonância ele chegou a conclusão que a ínsula (órgão do tamanho de uma ameixa situada no cérebro) interpreta as emoções e a partir daí que a mente toma suas resoluções.  
            Calcula-se que o cérebro funciona com 100 bilhões de células nervosas e mais de 50 neurotransmissoras, que resultam em mais de 500 trilhões de conexões neuronais. Graças a elaboração mental hoje em dia se conhece mais deste órgão complexo. Mas lhe dar a primazia mecanicista do domínio completo do corpo humano é uma quimera. Se assim fosse seriamos robôs.
João Fidélis de Campos Filho-Cirurgião-Dentista
http://jofideli.blogspot.com/

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Novo Mínimo

Novo Mínimo
                                                            João Fidelis de Campos Filho
       Ainda não é carnaval, mas o clima já é de festa e folia, pois parece que o país está parado se “guardando pra quando o carnaval chegar” (Chico Buarque). Quase tudo é postergado para depois do carnaval, como se houvesse uma ponte necessária a ser transporta até que as coisas voltem realmente a se engrenar neste país. O ano letivo começa para valer após a folia de Momo, muitos cursos de especialização, eventos importantes, inaugurações de obras, etc., muita coisa segue o calendário anual pós-carnaval.
       Nossos deputados, depois de todo este “esforço” para votar o novo salário mínino dão uma paradinha (afinal ninguém é de ferro) e vão curtir seu “merecido” descanso de carnaval. Calcula-se que este aumento de 35,00 tenha custado caro ao país nestas negociações dos bastidores. Contudo o salário mínimo é uma mera referência para pagamento de aposentados e para o salário de prefeituras do nordeste. Pouca gente sobrevive com um salário destes com esta galopante inflação e as empresas privadas estão bem cientes disso. E um empregado com uma melhor remuneração produz bem mais e dá mais lucro. O governo sempre se mostra ávido para taxar os lucros da classe produtiva, com impostos elevados, no entanto paga uma míngua para o trabalhador aposentado que contribuiu com seu suor por longos 30 ou 35 anos.
       A tabela do Sistema Único de Saúde é, no português mais direto, uma exploração aos profissionais da saúde. Coisa de quarto mundo. Por isso as santas casas estão sempre deficitárias e precisando de socorro para não fechar. Criar mais impostos, tal qual a famigerada CPMF, é tapar o sol com a peneira. Valeria apenas como formula de unificar impostos e distribuir renda se fosse aplicada corretamente. Teriam que suprimir vários impostos em cascata e criar a CPMF, ou um imposto sobre as movimentações comerciais, que taxando as operações bancárias ou comerciais, como é feito em vários lugares do mundo, traria resultados bem mais justos e racionais.
       Os congressistas foram rápidos na votação de seus salários. Concederam a si próprios um generoso aumento que veio a somar aos muitos benefícios da carreira parlamentar. A máquina pública custa cada vez mais neste país onde os maiores salários são pagos pelos traficantes de drogas. Como subir socialmente ganhando esta merreca que a maioria do povo recebe no fim do mês?
       Para piorar a imprensa divulgou nos últimos dias que o Brasil é um dos países com maior dinheiro depositado nos bancos suíços. Ganha de nações como a China, Índia, etc. Segundo os cálculos dos bancos suíços há mais de 6 bilhões de dólares desviados por brasileiros para as praças financeiras daquele paraíso fiscal. Mas de acordo com os prognósticos extra-oficiais este montante pode ultrapassar os 50 bilhões de dólares. A reportagem diz que nos últimos anos (que coincide com os últimos mandatos), as remessas das terras tupiniquins aumentaram muito. Isso demonstra que as políticas de fiscalização a doleiros no Brasil tem se mostrado ineficazes.
       Não por acaso há um projeto de legalização desta grana toda que poderia retornar sob certas condições ao Brasil. Seria uma forma de atenuar o problema. Contudo este é mais uma explicação para a péssima distribuição de renda em nosso país e o salário mínimo seja tão mínimo.
João Fidélis de Campos Filho –cirurgiã0-dentista
           

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Vamos Melhorar Este País?

Vamos Melhorar Este País?
                                                      João Fidélis de Campos Filho
             O povo exige mais liberdade nos países árabes. Saem às ruas protestam e arriscam suas vidas porque estão despertando deste sono dogmático/teocrático. Parece que a tirania está ficando fora de moda e as pessoas mais conscientes de seus direitos civis. Até quando estes regimes opressores e corruptos vão se sustentar? Esta é a pergunta que a mídia internacional vem se fazendo ultimamente. Irã, Cuba, Coréia do Norte, Líbia, etc., se tornaram nações destoantes da ordem econômica e social do mundo moderno e numa comunidade globalizada (e conseqüentemente mais informada) tendem a sofrer crescentes pressões por um regime mais pluralista e democrático.
             Um detalhe importante: a maioria dos manifestantes que derrubaram os governos na Tunísia e no Egito era constituída de jovens. Jovens de uma geração mais atenta ao que ocorre no planeta e que almejam banir os privilégios destes ditadores, como Hosni Mubarak, do Egito, que tinha uma grande fortuna depositada na Suíça.
             Mas vamos falar do Brasil, que elegeu novamente José Sarney para a presidência do Senado. Onde os réus do mensalão ocupam cargos importantes no atual governo e cuja classe política está totalmente desacreditada perante a opinião pública.  No caso brasileiro a participação política dos jovens tem sido muito tímida. Culpa os críticos a baixa escolaridade: de 32 milhões que matriculam no ensino médio apenas dois milhões concluem o ensino superior, mas será que é só este fator?
             Culturalmente o povo brasileiro é pacato, pouco reclama de seus direitos e aceita passivamente que seus representantes usem o poder para o enriquecimento. Isto é tão antigo (vem da época do Brasil – colônia) e parece que se tornou uma coisa tradicional ou um vício que o país não consegue se livrar. Todos sabem que a política abre muitas portas para a fortuna e associa a imagem do político como a de um padrinho que está sempre distribuindo presentes em troca de fidelidade. Parece que o povo até se acostumou a este sistema e perdeu a consciência cívica e o patriotismo. Aceita os pequenos favores como se fosse esta a ordem natural das coisas.
             Normalmente muitos políticos conseguem também resolver com facilidade seus problemas jurídicos, escapando-se da severidade da justiça (que nestes casos é até muito benevolente), pelo menos enquanto estão no poder. Tudo se arranja em se tratando de compadres, até a impunidade.
             Talvez nem fosse necessário pressões populares como as que estão ocorrendo nestes regimes totalitários, mas o brasileiro precisa aprender a cobrar mais de toda a classe política, precisa protestar mais, se organizar mais e lutar mais por seus direitos constitucionais. Isto faz parte do conceito de cidadania e de ética. Inclusão social, direitos das minorias, meio-ambiente, aperfeiçoamento das leis, combate à pobreza e diminuição das desigualdades, tudo isso faz parte dos princípios da ética moderna e tem que fazer parte da cartilha de reivindicação de todo o brasileiro e em especial a classe estudantil (por onde anda a UNE, que fez história contra a ditadura, e que parece se mancomunou com o governo atual?).
             Dizem que o jovem brasileiro está por demais alienado. Bem distante da realidade do país que necessita de mudanças urgentes em suas instituições decadentes. A sociedade brasileira precisa entrar para o rol do primeiro mundo não somente pela via econômica, mas principalmente pela via cultural. Aprimorando seus costumes, seus hábitos e comportamento. Jovens, vamos melhorar este país?
João Fidélis de Campos Filho- Cirurgião-Dentista
jofideli.blogspot.com    

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Novos Pecados Capitais

Novos Pecados Capitais
                                                                       João Fidélis de Campos Filho
                                      “O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno é a gente recordar” (Rachel de Queiroz)
       
        Não há dúvida que as pessoas que conseguem livrar-se dos erros, fracassos e decepções da vida pregressa vivem mais, pois abortam uma série de doenças psicossomáticas. Se as doenças têm inicio na mente, aqueles que lidam com mais facilidade com os conflitos internos naturalmente constroem uma blindagem contra a maioria delas. Entretanto os indivíduos que tem facilidade para guardar ressentimentos e possuem um elevado nível de vaidade teoricamente estão mais sujeitos a metabolizar estes sentimentos no futuro através de alguma forma de dor. E esta dor acaba vindo de alguma maneira. Nietzsche afirmava que “a memória do ressentido é uma digestão que não termina”. Quem guarda mágoas de alguém tem sempre uma causa mal resolvida a ser sanada e sua realização é se ver vingado pelos acontecimentos futuros. O maior problema do ressentido é que ele invariavelmente acredita que sua infelicidade presente é culpa de outra pessoa, ou de outras pessoas. E alimenta diariamente este sentimento. Mas o pior tipo de ressentido é o que atribui constantemente aos outros a causa de seus erros. “O inferno são os outros”, diz o ditado. O ressentido não sabe amar e não quer amar, mas quer ser amado. Mais que amado, quer ser alimentado, acariciado, acalentado, saciado. Não amar o ressentido é prova de maldade para ele.

        Mas hoje em dia, tão ruim como a mágoa o sentimento de culpa é visto como o oitavo pecado capital. Desde os primórdios o homem cultiva uma culpa que usualmente ceifa muitas das suas possibilidades de realização como ser porque sacrifica o presente em função de um futuro incerto. Voltando ao filosofo alemão Friedrich Nietsche as religiões empurram o ser humano para niilismo contraditoriamente, pois lhe incutem uma culpa perpetua pelos pecados e o transforma refém de um suposto paraíso ou inferno. Numa brilhante passagem do seu livro “Operação Cavalo de Tróia”, o escritor espanhol J.J Benitez diz: “Na realidade, creio que nenhuma igreja tem futuro, por um motivo: elas são meras etapas na vida dos seres humanos. Por milhares de anos a humanidade adorou o raio, sol, a lua, e isso passou. Agora estamos na etapa do dogma, em que as igrejas oferecem a salvação eterna, mas isso também vai passar. Um dia o homem chegará ao sagrado por si mesmo. Será o lindo experimento da busca pessoal”.
        Já há outros que pensam que o oitavo pecado capital, além da luxúria, gula, avareza, ira, soberba, preguiça e inveja, definidos pelo papa Gregório I, é a idolatria. O homem se acostumou a criar heróis e santos para suprir suas deficiências e, longe do aspecto sadio de enxergá-los apenas como exemplos a serem perseguidos os vêem como seres com poderes sobrenaturais. A sociedade moderna não se desvencilhou ainda dos falsos deuses por isso continua a mitificá-los de maneira errônea e supersticiosa. Aproveitando-se disso surgem falsos pastores a guiá-los nesta direção diariamente. Tornou-se um negocio lucrativo, pois a religiosidade é parte da natureza humana e é fácil despertá-la com promessas vis.
        Há também quem pense que o oitavo pecado capital é a corrupção. E se for verdade é um dos pecados mais praticados na atualidade, porque está inserido na vida pública de todas as nações do planeta em maior ou menor intensidade dependendo do nível cultural da população. O Brasil infelizmente ocupa posição de destaque entre os países mais corruptos e a ascensão a um cargo público quase sempre está associado ao enriquecimento ilícito. Há muitas cidades na Alemanha em que o prefeito e os vereadores recebem salários simbólicos ou nenhum salário, pois é um prestigio para eles servir à comunidade a que pertencem.
        Dizem alguns que a mentira ocupa posição de destaque entre os pecados humanos portanto seria o oitavo pecado esquecido por Gregório I. A mentira está associada à traição e quem se sente enganado pela inverdade propalada por outrem sempre contabiliza dissabores ou prejuízos materiais. A mentira gera a desconfiança e abala a credibilidade das instituições que dela se utilizam para atingir seus fins. Mentir é um vício perigoso e quem se habitua a ele constrói para si um mundo irreal. E passa a viver neste mundo ficcional como principal artífice. Dessa forma a mentira pode ser também considerada como mais um pecado capital.
        Nesta época que se fala tanto em consumismo o individuo perdulário também pode ser considerado mais um pecador? O perdulário causa muitos prejuízos a si, aos que o rodeiam e às vezes aos que nele confiam. Gastar mais do que se tem é como se apropriar do trabalho alheio sendo dessa forma mais um pecado que poderia ser adicionado aos já existentes.
        Pelo exposto a lista de pecados capitais precisa ser atualizada. Poderiam ser incluídos muitos crimes praticados pelo homem contra seu semelhante e que ocupam os inquéritos policias. Não se esquecendo dos modernos crimes cibernéticos, como disseminar vírus e retirar dinheiro de correntistas de bancos. Sendo assim o pecado está mais ligado à escolha (bem ou mal) do que propriamente ao ato. Escolher o mal seria sempre o pecado não importando se seria o oitavo ou o décimo terceiro pecado capital... A propósito a fofoca não é mais um dos pecados capitais?
João Fidelis de Campos Filho- cirurgião-dentista.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Dualidade

 Num momento qualquer do infinito ocorrerá um fenômeno de menor ou maior intensidade que como outros de outras eras será determinante. Neste específico espaço cosmológico, acessível apenas à imaginação especulativa, a natureza agrupará os últimos códigos que deflagrarão o próximo estágio evolutivo do planeta Terra. Nosso planeta ascenderá na escala de perfectibilidade do universo. Isso é o que vozes uníssonas têm apregoado insistentemente nos últimos anos.
Acontecerá o anunciado expurgo? Claro que esta nova diáspora é um ingrediente de somenos importância diante do fato em si. O salto qualitativo deste orbe propiciará uma vida mais livre entre os seres que aqui habitam e uma convivência mais ética e adequada à finalidade da existência humana. Isto é o que reza a teoria dos ciclos evolutivos do universo que retorna aos palcos de debates com maior força e freqüência. Em vários lugares do mundo novas comunicações retomam esta antiga idéia, que originalmente pregava uma espécie de hecatombe jamais vista que varreria do planeta milhões de seres numa depuração em grande proporção e levaria os de pouca luminosidade a um planeta já previamente preparado. Os que ficassem herdariam uma nova Terra, com menos dor e sofrimento. Delírio dos místicos? Qualquer coisa neste sentido deve ser averiguada pelos instrumentos que se dispõe, ou seja, a ciência.
A ciência continua sendo o porto seguro para provar a veracidade destas afirmações metafísicas. E a cada ameaça de tsunami, terremoto, incêndio de áreas grandes e inundações afirmam alguns médiuns que o planeta já está sofrendo as mudanças necessárias para a grande transformação final. Será?
                Bem mas é interessante não desprezar o fato que as aventuras siderais da imaginação humana foram um grande motor propulsor das conquistas da humanidade e desencadearam os grandes inventos que trouxeram o bem estar e as facilidades da vida moderna. Muito do que hoje é realidade nasceu de aventuras e projetos da mente humana, que utilizando as leis da natureza vislumbrou novos horizontes. O que é ficção atualmente pode se materializar num futuro próximo. É assim que funciona o desenvolvimento.
                Os mineiros costumam ouvir, ouvir e depois de ouvir mais uma vez para tomar uma decisão. Em casos como estas previsões proféticas, que sempre estiveram presentes na história da humanidade é preciso ter cautela. A metafísica precisa constantemente ser depurada pelo filtro da razão, porque sem o raciocínio lógico o homem viveria o tempo todo sonhando acordado.
No mundo as crenças e superstições são como ervas daninhas que se propagam em todo canto e são difíceis de combater. E elas resistem ao tempo justamente porque há ainda muito terreno propício para elas se propagarem. O povo acredita em demasia em coisas improváveis e pouco inteligentes.
Contudo é oportuno lembrar a dualidade que freqüentemente contrapõe as idéias do mundo. O chamado “principio dos contrários” do pai da filosofia, Aristóteles, que afirmava que os opostos vivem em constante dialética na vida humana. Segundo o  brilhante pensador grego a evolução é a conciliação entre a tese e a antítese que resulta na síntese. Por isso a função da mente é descobrir a unidade que se encontra latente na diversidade. Dessa forma antes de reprovar a idéia que a Terra irá passar por uma grande depuração e expurgo de sua população é preciso duvidar e analisar primeiro, buscar as evidências do fato e só assim tomar partido. Afinal a mente é um campo interminável de idéias e teorias.